Migração para desktops corporativos Linux: compartilhando experiências - Parte 1

É plenamente possível migrar seu ambiente de desktops/notebooks corporativos para Linux.

Migração para desktops corporativos Linux: compartilhando experiências - Parte 1

O Brasil, apesar de possuir um potencial econômico gigantesco, ainda é um país pobre, e paradoxalmente, caro para se viver e produzir. É uma dicotomia que sucessivos governos não resolveram e se aprofundou ainda mais neste último quadriênio com a instalação de uma crise econômica que parece não ter fim (as projeções para o PIB deste ano são catastróficas). Neste cenário de estagnação econômica, empresas, órgãos públicos, autarquias, comércio, e principalmente as pequenas e médias empresas, necessitam cortar custos. É uma realidade cruel, porém, imperativa. E por que não começar adequar-se e esta realidade de crise cortando custos com licenciamentos de softwares proprietários? Aliás, por que não fazê-lo em tempo de bonança, também, uma vez que o dinheiro economizado com licenças pode ser investidos em outros setores da empresa?

Pois bem! Não há nenhuma pretensão com esta série de artigos que inicio aqui, influenciar uma tomada de decisão tão impactante para a vida de um ambiente corporativo, uma vez que mudança do ambiente de sistemas operacionais e softwares de produtividade/escritório é bem significativa para o dia-a-dia dos funcionários. E sim, mostrar que, hoje em dia, é plenamente possível migrar seu ambiente de desktops para o mundo Linux, sem traumas e com ganhos não só financeiros, mas de segurança, liberdade de escolha e customização do ambiente. E, também, compartilhar experiências com migração de ambiente MIcrosoft para Linux, para que possa auxiliar quem esteja na dúvida por migrar ou não.

Dito isto, a primeira migração que participei foi em 2004, em um ambiente pequeno com dez desktops, 3 impressoras e um roteador. Em verdade, cheguei lá para resolver um problema no roteador que ligava a rede local do setor à rede da universidade e por conseguinte à Internet. Coloquei um FreeBSD para rotear e fazer firewall com IPFW e proxy com Squid. Ganhei o contrato para suporte e a partir de então,  um dos diretores que era entusiasta do software livre e não queria mais gastar com licenças, decidiu que iríamos tirar os desktops Windows e o pacote Office e usaríamos Linux e Open Office. E assim foi feito.

Como este evento aconteceu há quinze anos atrás, não vale à pena detalhá-lo aqui. Muita coisa mudou. O Linux em desktops e notebooks amadureceu demais tanto na amigabillidade, quanto na estabilidade. Com maior uso do sistema de Linus Torvalds nos desktops pessoais e corporativos, inúmeras aplicações surgiram ou amadureceram junto com o sistema operacional do Pinguim e inúmeros drivers para periféricos foram escritos. Então, não vale à pena, de fato entrar no detalhe deste evento em particular. Mas, no geral, o que ficou da migração ainda serve para auxílio em novas situações. A primeira observação desta migração foi que a maior resistência dos usuários se deu em sair do Office da Microsoft para o Open Office, à época. E isto ainda é um ponto nervoso até hoje. Tem de ter muita calma, paciência e muito apoio aos usuários. A segunda observação, é que tive muito trabalho com as impressoras, uma vez que eram locais, e de modelos e fabricantes diferentes. Na época apanhei com o CUPS. Isso mudou também, para melhor. Por fim, não conseguimos que o pessoal de design e tal, abandonassem seu Corel Draw, Photoshop e cia. Mas, a migração foi feita, deu tudo certo no final, ate hoje ainda roda Linux lá.

Ah! Outra observação oriunda dessa experiência é que devemos aproveitar a migração para mudar políticas, estratégias e cultura de TI da empresa. Nesse caso, os arquivos eram guardados nas máquinas e usuários responsáveis pelo próprio backup. Trash, né? Aproveitamos e colocamos um servidor de arquivos com serviço de diretório (Debian Server com Samba e OpenLDAP) e fizemos backups automatizados centralizados, transparente para o usuário (usei rsync com Crontab).

Depois, participei de outra migração, não de desktops Windows para Linux e sim, de rede Novell para ambiente Microsoft (imposição gerencial) e embora, não seja o foco dessa série de artigos, entendo ser importante lembrar aqui, por ter sido uma migração grande (6 servidores e 300 computadores) que me trouxe uma experiênca fenomenal, aprendizado enorme e uma bagagem boa em relação a migração de ambiente.

Atualmente, estou participando de uma migração, também, grande, como liderado.

Então vamos lá!

Eu dividiria o processo de migração nas seguintes etapas:

  1. Tomada de decisão e análise de riscos;
  2. Avaliação da experiência da equipe
  3. Planejamento e preparação;
  4. Decisão por qual distribuição adotar;
  5. Levantamento dos softwares utilizados no ambiente;
  6. Homologação dos softwares substitutos;
  7. Testes pré-migração;
  8. Plano de comunicação;
  9. Documentação;
  10. Migração;
  11. Ajustes pós-migração;
  12. Entrega final.

Processos de migração de ambiente podem ter alguma diferença em relação às etapas que elenquei acima, mas não vão fugir muito disso. Se está pensando em migrar e está com cronograma tranquilo - sem muita pressão - vale à pena investir nesse modelo para que os eventuais problemas pós migração sejam mitigados. E creia: eles existirão. É aquela máxima em ambiente de TI, principalmente de desenvolvimento: ambiente de teste é fundamental, mas quando vai para produção é que as coisas realmente acontecem. Embora, a realidade atropele o planejamento na maioria das vezes, é preciso ser firme, cumprir e não atropelar etapas.

Por ora, paro por aqui. No próximo artigo começo a falar sobre as fases com mais profundidade, discussão técnica e detalhamento.

Até lá!